Lição 2 de 6 · 14 min · Verificado em 10 de Outubro de 2026
IA numa equipa ou empresa: regras, custos e literacia
No fim desta lição vais conseguir:
- Escrever, numa página, a regra de uso de IA de uma pequena equipa
- Distinguir contas pessoais de contas da empresa: dados, facturação e quem vê o quê
- Estimar o custo da IA sem números de memória, incluindo o custo do «grátis»
- Explicar o que o artigo 4.º do AI Act pede hoje sobre literacia em IA
Três empregados, três maneiras
Na drogaria do senhor Manuel, na vila, trabalham três pessoas. A Ana usa IA no telemóvel para escrever os anúncios das redes sociais. O Paulo cola os emails dos fornecedores na sua conta pessoal gratuita, para os resumir. A Rita não usa, porque acha que «é proibido», embora ninguém o tenha dito.
Ninguém está a fazer mal de propósito. Mas a loja não sabe que dados saíram, quanto se gasta, nem quem responde se um anúncio sair com o preço errado. Falta uma coisa simples: uma regra escrita.
A regra de uso numa página
Uma boa regra cabe numa página e responde a quatro perguntas.
1. O que se pode fazer. Com exemplos da casa: «escrever rascunhos de anúncios e emails», «resumir documentos sem dados pessoais», «traduzir avisos para clientes estrangeiros».
2. O que não se pode fazer. «Enviar a um cliente um texto da IA sem o ler.» «Usar IA para decidir sobre pessoas», como quem fica com o turno ou quem tem desconto. «Usar contas pessoais para trabalho.»
3. Que dados nunca entram. A lista que viste no Nível 1 (dados de clientes, números de identificação, saúde, palavras-passe, contratos), escrita com as palavras da tua empresa: «a ficha de clientes do cartão de desconto nunca entra».
4. Quem responde. Quem envia responde pelo que enviou, mesmo que a IA o tenha escrito. Escreve também a quem se pergunta quando há dúvida e a quem se avisa quando algo corre mal.
No fim, uma data e a frase «revemos esta regra de seis em seis meses». As ferramentas mudam depressa.
Dica
Escreve com exemplos concretos, não com palavras de manual. «Não colar dados pessoais» é vago. «Não colar a ficha de cliente nem fotografias de receitas médicas» toda a gente percebe.
Contas pessoais ou conta da empresa
Quando cada um usa a sua conta pessoal, três coisas ficam fora do controlo da empresa:
- Os dados. As conversas são da pessoa, não da empresa. Se o Paulo sair, leva o histórico, com os emails dos fornecedores. E as definições de privacidade (por exemplo, se as conversas servem para treino) são as que ele escolheu, ou as que vinham de origem.
- A facturação. Uma assinatura paga com o cartão pessoal costuma ficar com os dados de facturação da pessoa, não da loja, e ninguém sabe ao certo quanto se gasta no total. Confirma que os dados de facturação identificam a empresa e centraliza o registo das despesas.
- Quem vê o quê. Numa conta da empresa há um administrador que dá e tira acessos, escolhe as definições de privacidade para todos e partilha projectos com a equipa. Conforme o serviço, pode também ver registos de uso. Diz isso às pessoas, com clareza.
Nas contas de empresa, estas opções costumam estar numa área de administração, separada das definições pessoais. Antes de contratar, procura nos termos três respostas: os dados servem para treino? Onde ficam guardados? O que acontece quando se apaga a conta? Isto é como está a 6 de Outubro de 2026; se o ecrã for diferente, procura o botão com o mesmo nome.
Custos: fazer contas sem números
Os preços mudam quase todos os meses, por isso não estão aqui: consulta a página Estado actual. O que não muda é a maneira de pensar. Há duas formas de pagar:
- Por pessoa e por mês. Um valor fixo por cada lugar. É previsível. Compensa para quem usa todos os dias; para quem usa uma vez por mês, é dinheiro parado.
- Por uso. Pagas conforme a quantidade de texto que a IA lê e escreve. É o habitual quando ligas a IA a uma automação, como na lição anterior. Pode sair barato, ou disparar se um fluxo ficar a correr às voltas. Por isso, define sempre um tecto de gasto.
Para estimar, faz uma tabela simples: quem usa, para quê, quantas vezes por semana. Experimenta um mês, com tecto, e compara a factura com a estimativa.
Cuidado
«Grátis» também tem custo, pago de outra maneira: as conversas podem servir para treinar modelos; há limites que param o trabalho a meio do dia; há termos de uso, mas um plano gratuito pode não oferecer as condições de tratamento de dados, suporte ou disponibilidade de que uma empresa precisa (lê os termos); e as regras podem mudar de um dia para o outro. E há o custo que ninguém conta: o tempo de alguém a rever o que a IA fez. Esse existe sempre, pago ou grátis.
Literacia em IA: o que a lei pede
O AI Act (Regulamento (UE) 2024/1689) tem um artigo sobre literacia em IA, o artigo 4.º. Foi reescrito pelo Regulamento (UE) 2026/1744, em vigor desde 27 de Julho de 2026. Na redacção actual, as empresas e organizações que usam IA no trabalho devem tomar medidas para promover a literacia em IA das pessoas que a usam em seu nome. Já não se fala em garantir um nível certo para cada pessoa.
Em linguagem de loja: se pões os teus empregados a usar IA, ajuda-os a perceber o que estão a usar. A regra numa página é uma dessas medidas. Este curso, feito pela equipa, pode ser outra parte. Guarda uma nota simples de quem fez que formação e quando.
Fontes: Regulamento (UE) 2024/1689 e Regulamento (UE) 2026/1744, no EUR-Lex. Isto não é aconselhamento jurídico.
Dica
A forma mais barata de literacia: dez minutos na reunião de segunda-feira para alguém mostrar um uso que correu bem e um erro que a IA cometeu. Aprende-se mais com o erro.
Exercício: a regra da drogaria
Ajuda-me a escrever a regra de uso de IA de uma drogaria com 3 empregados, numa só página, em português de Portugal e linguagem simples.
Usamos IA para: [ex.: anúncios nas redes sociais, resumir emails de fornecedores, traduzir avisos].
Dados que temos e que nunca podem entrar: [ex.: ficha de clientes, preços de compra, fotografias de receitas].
A quem se pergunta quando há dúvida: [nome ou função].
Organiza em 4 partes: o que se pode fazer, o que não se pode, dados que nunca entram, quem responde. Usa exemplos concretos, não frases gerais. No fim, uma linha com a data de revisão.
Exercício
Como sei que ficou bem uma página que se lê em três minutos, com exemplos da casa, e uma pessoa que, só com essa página, responde certo à pergunta do passo 4.
Se não deu
- Saiu um texto comprido e cheio de palavras de lei? Pede: «Reescreve como se fosse para afixar na parede do armazém.»
- A pessoa não soube responder no passo 4? Falta um exemplo concreto na parte dos dados. Acrescenta-o com as palavras dela.
- Não sabes que dados a loja tem? Faz primeiro essa lista: o que está no computador, no telemóvel da loja e nas pastas. A regra vem depois.
Vídeos
Explica, em três minutos, porque uma empresa precisa de uma política interna para o uso de IA e que dados podem ou não ser introduzidos nestas ferramentas.
IBM sobre quem responde pela IA numa organização, governação e literacia em IA. É de Janeiro de 2025.
Testa o que aprendeste
Correcções a esta lição (1)
- : Segunda revisão externa: o gratuito tem termos de uso, mas pode não dar as condições de tratamento de dados, suporte ou disponibilidade de que uma empresa precisa; e a assinatura no cartão pessoal fica com dados de facturação da pessoa, por isso confirma-se que identificam a empresa e centraliza-se o registo das despesas.