Lição 3 de 7 · 13 min · Conteúdo de conceito, não envelhece
Porque esquece e porque inventa
No fim desta lição vais conseguir:
- Explicar porque é que a IA esquece o início de uma conversa comprida
- Reconhecer uma alucinação e saber o que verificar sempre
- Pedir à IA que diga quando não tem a certeza
Uma tarde a preparar uma festa
O Rui passa a tarde a preparar com a IA a festa dos 50 anos da mulher. Logo no início disse: «Somos 40 pessoas e a Teresa não come marisco.» Duas horas e muitas mensagens depois, a IA propõe uma entrada de camarão. Esqueceu-se.
Na mesma tarde, o Rui pergunta quem escreveu uma quadra popular que quer pôr no convite. A IA responde com um nome, um ano e uma freguesia. Tudo muito certinho. Tudo inventado.
Nenhuma das duas coisas é avaria. As duas vêm da maneira como a IA funciona. E as duas têm remédio.
Porque esquece: a folha de papel
Imagina que cada conversa é escrita numa folha de papel com tamanho fixo. Cada mensagem tua e cada resposta dela ocupam espaço. Quando a folha enche, o que está no topo começa a desaparecer, ou fica resumido à pressa, para dar lugar ao que é novo.
A essa folha chama-se janela de contexto. É tudo o que a IA consegue ver de cada vez. O que saiu da folha, para ela, deixou de existir. Por isso o Rui teve camarão na ementa.
E cada conversa nova começa com uma folha em branco. A IA não se lembra do que falaram ontem noutra conversa. Alguns serviços têm uma função de «memória» que guarda umas notas sobre ti entre conversas, mas são notas soltas, não a conversa inteira.
Dica
Numa conversa comprida, de vez em quando escreve: «Faz um resumo de tudo o que já decidimos.» Lê o resumo com atenção e corrige o que estiver errado ou em falta: se a IA já se esqueceu de alguma coisa, o resumo também se esquece. Depois copia-o, abre uma conversa nova e cola-o logo no início. É como passar a limpo.
Uma curiosidade, só para saberes: a IA não conta palavras, conta tokens, que são pedaços de palavras. Uma palavra curta pode ser um pedaço; uma palavra comprida ou rara pode ser partida em vários. O tamanho da folha mede-se em tokens. Não precisas de saber mais do que isto.
Porque inventa: soar bem não é ser verdade
Lembra-te da lição 1: a IA adivinha a palavra seguinte. Foi feita para escrever o que soa bem e é provável. Dizer «não sei» não lhe sai naturalmente. Se perguntas quem escreveu uma quadra, o mais provável a seguir a «O autor é» é… um nome. E ela escreve um, com a mesma calma com que diria uma coisa certa.
A isto chama-se alucinação: uma resposta inventada, dita com confiança. Não é mentira de propósito, porque a IA não tem intenções. É o motor a fazer o que sabe fazer: preencher o espaço com o que parece provável.
Há duas razões que tornam isto pior:
- A data de corte. O modelo aprendeu com textos até uma certa data. O que aconteceu depois (o novo horário do barco, uma lei publicada na semana passada, o resultado do jogo de domingo) ele não sabe. Se perguntares, pode inventar.
- Não vê a realidade. Não sabe se a padaria está aberta, se choveu hoje ou quanto custa a gasolina. Só consegue saber se tiver pesquisa ligada, ou seja, se for à internet procurar e mostrar as fontes. Mesmo assim, abre as fontes: pode ter percebido mal o que lá está.
Cuidado
A regra prática: nome, número, data, lei ou citação verifica-se sempre. São estes os pormenores que a IA inventa com mais à-vontade. E são estes os que custam caro quando estão errados: o artigo errado numa reclamação, o prazo errado das Finanças, a frase que ninguém disse posta na boca de alguém.
Como reduzir as invenções
Não há maneira de acabar com elas de vez. Mas há três hábitos que ajudam muito.
1. Pede-lhe que admita a dúvida. Junta isto ao teu pedido:
Se não tiveres a certeza de alguma coisa, diz claramente que não sabes em vez de adivinhar. Separa o que é facto do que é suposição tua.
2. Dá-lhe tu o material. Se colares o texto do regulamento e pedires «explica-me este parágrafo», a IA trabalha a partir do que está à frente dela. Inventa muito menos do que quando tem de puxar pela «memória».
3. Pergunta onde confirmar. «Onde posso confirmar isto?» Mas atenção: sem pesquisa ligada, até os links e os títulos de livros podem ser inventados. Abre-os sempre.
Dica
Usa a IA para o que ela faz bem com o que tu lhe dás: resumir uma carta, explicar um termo, reescrever um texto teu. Para factos novos ou muito precisos (horários, preços, moradas, leis), vai à fonte oficial.
Exercício: apanha uma invenção
Vamos provocar uma alucinação de propósito, para a reconheceres quando aparecer sem aviso. A pessoa deste pedido não existe: inventámo-la para o exercício.
Escreve uma pequena biografia do mestre Albano, o tocador de viola da terra da nossa história, que foi durante muitos anos o mais conhecido da sua freguesia. Diz em que ano nasceu, com quem aprendeu e que prémios ganhou.
Exercício
Como sei que ficou bem uma de duas coisas. Ou a IA escreve uma biografia cheia de datas e prémios (e, quando perguntas, admite que não tem fontes), e apanhaste uma invenção. Ou diz logo que não encontra informação sobre essa pessoa, e viste a resposta certa. As duas ensinam.
Se não deu
Se a IA disse logo que não conhece a pessoa, óptimo: está a fazer o que deve. Para veres uma invenção, experimenta um livro que não existe de um autor verdadeiro: «Resume o livro "O Barco das Sete Ilhas", de Vitorino Nemésio.» Se ela fizer um resumo, apanhaste-a. Se disser que não encontra esse livro, também está certo. Repara só que, se tivesse inventado, o texto soaria igualmente convincente.
Vídeos
Explica o que são alucinações da IA e porque é que o ChatGPT, o Gemini e outros inventam respostas com confiança.
O NetworkChuck mostra, com demonstração, o que é a janela de contexto e porque é que o modelo parece esquecer ou perder o fio à conversa.
Testa o que aprendeste
Correcções a esta lição (1)
- : Depois de uma revisão externa: a pergunta 3 do quiz foi refeita (agora compara três formas de fazer o mesmo pedido); a explicação diz que a IA pode saber o horário se tiver pesquisa ligada ou se lho deres; a dica do resumo manda revê-lo antes de o levar para outra conversa; o exercício deixou de usar um nome completo e uma freguesia reais; as opções do quiz foram reordenadas.