Lição 1 de 6 · 15 min · Conteúdo de conceito, não envelhece
Pedidos avançados: papéis, passos, exemplos e iterar
No fim desta lição vais conseguir:
- Dar à IA um papel e um público para mudar o tom e o nível da resposta
- Mostrar 1 ou 2 exemplos do resultado que queres e pedir um formato concreto
- Pedir à IA que critique a própria resposta e melhorá-la por partes, sem recomeçar
O cartaz da feira, em três tentativas
A Graça é da comissão de festas da freguesia. Em Agosto há a feira de produtos da terra e ela precisa do texto para o cartaz. Faz três tentativas com a IA, cada uma melhor do que a anterior.
Versão 1. O pedido que quase toda a gente escreve:
Escreve um texto para o cartaz da feira da freguesia.
Sai «Venha celebrar connosco a tradição!!!», sem data, sem local e com três pontos de exclamação.
Versão 2. Com a fórmula do Nível 1 (situação, o que quero, para quem, formato):
A freguesia de [nome] organiza a feira de produtos da terra no sábado, [16 de Agosto], das 10h às 19h, no largo da igreja. Há queijo, artesanato, gado, comes e bebes e música ao fim da tarde. Escreve o texto para um cartaz A3: um título curto, uma frase de convite e a informação prática. É para toda a gente da ilha, incluindo os mais velhos. Em português de Portugal, sem exclamações a mais.
Já tem tudo o que importa. Mas o título sai banal e a Graça não tem com que comparar.
Versão 3. Com as peças desta lição:
És um designer gráfico que faz cartazes para festas de aldeia. Sabes que um cartaz se lê em 3 segundos, de dentro de um carro.
[a mesma informação da versão 2]
Faz assim:
1. Primeiro, faz-me até 3 perguntas sobre o que te falta saber.
2. Depois, dá-me 3 títulos diferentes: um tradicional, um com humor e um com 4 palavras no máximo.
3. Para cada título, escreve o cartaz completo numa tabela com três colunas: título, frase de convite, informação prática.
4. No fim, diz qual dos três se lê melhor à distância e porquê.
Exemplo do tom de que gosto, de um cartaz antigo: «Festa do Espírito Santo: sopas, música e a vila toda na rua».
A IA pergunta se há estacionamento e se a entrada é livre. Depois entrega três cartazes lado a lado. A Graça escolhe o segundo e ainda o afina. Vamos ver as peças uma a uma.
Dar um papel
«És um contabilista que explica a um comerciante.» Esta frase muda o vocabulário, o nível de pormenor e aquilo a que a IA dá importância. Resulta melhor quando dizes também para quem ela fala: o comerciante, o aluno do 9.º ano, a vizinha de 80 anos.
Cuidado
Um papel não dá competência. Escrever «és um advogado» não põe um advogado do outro lado: põe a IA a falar como um, com mais termos técnicos e mais segurança. Continua a poder inventar um artigo de lei. O papel muda o tom, não a verdade. Leis, números e datas verificam-se sempre, como no Nível 1.
Pedir passos
A IA escreve palavra a palavra. Se responde logo, tende a agarrar-se à primeira ideia que lhe ocorre. Quando lhe pedes passos («primeiro faz perguntas, depois responde»; «primeiro lista os problemas, depois propõe soluções»), ela organiza-se antes de escrever. E tu podes corrigir a meio, antes de o trabalho estar feito.
Mostrar exemplos
Às vezes é difícil descrever o que queres, mas é fácil mostrar. É como dizer ao padeiro «quero um pão como este» em vez de lhe explicar a côdea. Um ou dois exemplos dizem à IA o tom, o tamanho e a forma de uma só vez. Em inglês chama-se a isto few-shot, «com poucos exemplos».
Escreve descrições curtas para os produtos da minha loja, no mesmo estilo destes dois exemplos:
Queijo curado: «Curado 4 meses. Picante no fim. Pede pão de milho e um copo de tinto.»
Doce de amora: «Amoras apanhadas à mão. Pouco açúcar. Fica bem com queijo fresco.»
Agora escreve para: [manteiga com sal], [massa sovada], [compota de araçá].
Dica
Com um só exemplo, a IA tende a copiá-lo de perto. Dá dois exemplos diferentes entre si e diz o que queres que ela siga: «o tom e o tamanho, não as palavras».
Pedir o formato
Diz como queres receber: em tabela, em lista, em duas colunas (português e inglês), com um máximo de palavras. E pede várias versões. A primeira ideia da IA é a mais provável, e a mais provável é quase sempre a mais banal. Com três versões à frente, escolhes tu.
Pedir que critique a própria resposta
Depois da resposta, põe a IA a rever o que escreveu, com os olhos de quem vai ler:
Lê o que escreveste como se fosses uma pessoa de 70 anos que passa pelo cartaz de carro. O que não se percebe? O que falta? Aponta pelo menos 3 problemas e depois corrige-os.
A autocrítica apanha frases confusas, informação em falta e títulos compridos. Não apanha factos inventados: esses, verificas tu.
Dica
Se a crítica vier cheia de elogios, sê exigente: «Não quero elogios. Aponta só o que está mal.»
Iterar: mexer numa parte, não reescrever tudo
Quando a resposta está quase boa, não recomeces numa conversa nova. Aponta a parte e diz o que fica:
Fica a versão 2. Mantém tudo, menos o título: mais curto e sem a palavra «tradição».
Dizer o que manténs evita que a IA estrague o que já estava bem. Só vale a pena recomeçar quando a conversa já deu muitas voltas e a IA começa a esquecer o que combinaram. Aí, pede um resumo e cola-o numa conversa nova (lição 3 do Nível 1).
Dica
Quando uma versão 3 te sair bem, guarda-a no teu bloco de notas como modelo. Na próxima feira, só trocas a data.
Exercício
Como sei que ficou bem três respostas cada vez melhores. A última traz três opções numa tabela e uma recomendação, e acabas com um texto que usarias hoje.
Se não deu
- A IA não fez perguntas e escreveu logo? «Pára. Primeiro as perguntas, depois escreves.»
- As três versões são quase iguais? «Mais diferentes entre si: uma séria, uma com humor, uma só com 4 palavras.»
- A tabela ficou desfeita no telemóvel? Pede uma lista numerada em vez da tabela.
- Copiou o teu exemplo palavra por palavra? Dá um segundo exemplo, diferente, e diz «só o tom».
Vídeos
Cinco técnicas práticas para escrever pedidos (sem exemplos, com exemplos, papéis, contexto e cadeia de raciocínio), mais a indicação do formato da resposta, com exemplos simples.
Fórmula em seis partes para um bom pedido (tarefa, contexto, exemplos, papel, formato e tom), com a comparação entre um pedido fraco e um bom. É de 2023, mas a estrutura do pedido continua válida.